Se vestir para ser vista é liberdade?

A minissaia dizia: é meu. A hipersexualização diz: é seu, se der like. Esta é a versão longa do nosso minidoc sobre o olhar: quem olha, quem é olhada e o que acontece quando a gente passa a se ver com os olhos de quem está do outro lado da tela.

Esta não é uma matéria contra o decote, a saia curta ou o corpo à mostra. É uma matéria sobre uma pergunta só: para quem você está se vestindo?

Em resumo

  • Em 1975, a teórica de cinema Laura Mulvey deu nome ao male gaze: a câmera que olha a mulher pelos olhos de um espectador masculino.

  • Hoje esse olhar mora no feed. A objetificação deixou de vir só de fora e passou a ser autoproduzida.

  • A Associação Americana de Psicologia alerta que imagens de mulheres adultas vestidas e posando como meninas ajudam a normalizar a sexualização da infância.

  • O limite não é o comprimento da saia. É para quem você mostra.


Quem está olhando?

Em 1972, o crítico inglês John Berger resumiu séculos de pintura europeia numa observação desconfortável: os homens olham para as mulheres, e as mulheres se veem sendo olhadas. Basta caminhar por um museu. Na Vênus de Urbino, que Ticiano pintou em 1538, a mulher está deitada para quem a contempla. Na Vênus ao espelho, de Velázquez, ela se olha, mas o espelho está virado para nós.

Manet pintou Olympia em 1863 e, quando a tela foi exibida no Salão de Paris, em 1865, causou escândalo. Não pela nudez, que era comum na pintura, mas pelo olhar: ela encara o espectador de volta. A mulher que devolve o olhar sempre incomodou mais do que a mulher que se mostra.

O olhar ganha um nome

Em 1975, a teórica britânica Laura Mulvey publicou na revista Screen o ensaio Visual Pleasure and Narrative Cinema. Ali ela nomeou algo que todo mundo sentia: o male gaze, o olhar masculino. No cinema clássico, a câmera filmava a mulher como algo a ser observado, pelos olhos de um espectador presumidamente homem. Ela era imagem. Ele era quem olhava.

Duas décadas depois, as psicólogas Barbara Fredrickson e Tomi-Ann Roberts deram o passo seguinte com a teoria da objetificação, de 1997: de tanto ser observada, a mulher aprende a se observar de fora. É a auto-objetificação, aquele monitor interno que pergunta o tempo todo como você está parecendo, em vez de como você está se sentindo.

A minissaia dizia: é meu. A hipersexualização diz: é seu, se der like.

Da minissaia ao feed

Nos anos 1960, a minissaia de Mary Quant, em Londres, virou símbolo de uma geração. Era curta, prática, jovem, feita para mulheres que se mexiam, corriam e dançavam. A saia subia junto com a pílula, o trabalho fora de casa e a autonomia. O corpo à mostra era uma decisão da própria mulher.

Hoje, o olhar mudou de lugar. Ele não está mais só na câmera do diretor. Está no celular da própria mulher, no algoritmo que premia certas poses, na contagem de curtidas. A objetificação deixou de vir só de fora e passou a ser autoproduzida. A gente aprende a se fotografar com o mesmo olhar que Mulvey descreveu em 1975.

Quando a mulher adulta vira menina

Em 2007, a Associação Americana de Psicologia publicou o relatório de uma força-tarefa sobre a sexualização de meninas. Um dos pontos interessa diretamente à moda: imagens de mulheres adultas vestidas e posando como meninas, com laços, voz infantil e poses sensuais, ajudam a borrar a linha entre infância e sexualidade.

Não se trata de policiar o laço no cabelo ou o vestido rodado. Se trata de perceber a mensagem quando inocência e sedução são vendidas no mesmo pacote. Estética infantil somada a pose sensual não é inocente. É um código.

Como levar isso para o seu guarda-roupa

  • Antes de postar, pergunte: eu escolhi essa pose ou o algoritmo escolheu por mim?

  • Use o curto, o justo e o decote quando for desejo seu, e não quando for pedágio para ser vista.

  • Repare se você se arruma para sentir ou para ser avaliada. As duas coisas são diferentes.

  • Siga mulheres que olham o mundo, e não só mulheres que posam para ele.


History research arquivo

1Minivestido de lã cinza de Mary Quant, 1967
2Pintura Vênus ao espelho, de Diego Velázquez
3Minivestido dos anos 1960 do Amsterdam Museum
4Minivestido laranja, preto e branco sem mangas, 1966
5Pintura Olympia, de Édouard Manet, 1863
6Pintura Vênus de Urbino, de Ticiano, 1538

De Ticiano ao feed: cinco séculos de mulheres pintadas, filmadas e fotografadas para alguém olhar.

7Roupas de Mary Quant expostas no Victoria and Albert Museum
8Roupas de Mary Quant expostas no Victoria and Albert Museum
9Roupas de Mary Quant expostas no Victoria and Albert Museum
10Roupas de Mary Quant expostas no Victoria and Albert Museum
  1. Mary Quant, minivestido de lã cinza, 1967. Museum Rotterdam. CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.
  2. Diego Velázquez, Vênus ao espelho (Rokeby Venus), c. 1647 a 1651. National Gallery, Londres. Domínio público, via Wikimedia Commons.
  3. Minivestido, década de 1960. Amsterdam Museum, KA 19676. CC0, via Wikimedia Commons.
  4. Tibolux, minivestido sem mangas, 1966. Museum Rotterdam. CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.
  5. Édouard Manet, Olympia, 1863. Musée d'Orsay. Domínio público, via Wikimedia Commons.
  6. Ticiano, Vênus de Urbino, 1538. Galleria degli Uffizi. Domínio público, via Wikimedia Commons.
  7. Moda de Mary Quant na retrospectiva Mary Quant do Victoria and Albert Museum, Londres, 2019. Foto: livvya. CC0, via Wikimedia Commons.
  8. Moda de Mary Quant na retrospectiva Mary Quant do Victoria and Albert Museum, Londres, 2019. Foto: livvya. CC0, via Wikimedia Commons.
  9. Moda de Mary Quant na retrospectiva Mary Quant do Victoria and Albert Museum, Londres, 2019. Foto: livvya. CC0, via Wikimedia Commons.
  10. Moda de Mary Quant na retrospectiva Mary Quant do Victoria and Albert Museum, Londres, 2019. Foto: livvya. CC0, via Wikimedia Commons.

Leituras e fontes do texto

  • Laura Mulvey, “Visual Pleasure and Narrative Cinema”, Screen, 1975.
  • John Berger, Ways of Seeing, 1972.
  • Barbara L. Fredrickson e Tomi-Ann Roberts, “Objectification Theory”, Psychology of Women Quarterly, 1997.
  • American Psychological Association, Report of the APA Task Force on the Sexualization of Girls, 2007.

Então, onde fica o limite?

O limite não é o comprimento da saia. É para quem você mostra. A mesma minissaia pode ser liberdade ou vitrine, dependendo de quem decide e de quem você espera que aprove.

Liberdade é escolher sem precisar do olhar de fora.

E você, se veste para quem? Conta pra gente nos comentários do minidoc no Instagram.

Perguntas frequentes
O que é male gaze?

É o termo criado pela teórica de cinema Laura Mulvey em 1975 para descrever o olhar masculino: a forma como o cinema e a cultura visual mostram a mulher como objeto a ser observado, pelos olhos de um espectador presumidamente homem.

O que é auto-objetificação?

É quando a mulher passa a se observar de fora, como se fosse a plateia de si mesma. O conceito vem da teoria da objetificação, publicada em 1997 pelas psicólogas Barbara Fredrickson e Tomi-Ann Roberts.

O que a psicologia diz sobre a sexualização de meninas?

Em 2007, uma força-tarefa da Associação Americana de Psicologia concluiu que a sexualização traz prejuízos para meninas e mulheres, e apontou que imagens de mulheres adultas vestidas e posando como meninas ajudam a borrar a linha entre infância e sexualidade.

Usar roupa curta é se objetificar?

Não. O limite não é o comprimento da saia, mas para quem você mostra. Nos anos 1960, a minissaia era uma decisão da própria mulher. A questão é quando a roupa vira pedágio para ser aprovada pelo olhar de fora.

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