Quem conhece o próprio corpo se veste diferente?

Isso é um vestido. Você viu outra coisa? Se a sua cabeça foi direto para o corpo, ótimo: é exatamente sobre isso esta matéria. Esta é a versão longa do nosso minidoc sobre corpo, desejo e roupa: o que a ciência demorou a enxergar, o que a moda moldou para o olhar dos outros e o que muda quando a mulher se veste a partir de si.

Durante séculos, o corpo feminino foi desenhado de fora para dentro. Pela medicina, pela moral, pelo espartilho. A pergunta desta edição é simples e incômoda: e se a gente começasse a se vestir de dentro para fora?

Em resumo

  • A anatomia completa do clitóris só foi descrita em 1998, pela urologista australiana Helen O'Connell. No mesmo ano em que o Google nasceu.

  • O espartilho moldou a cintura feminina para o olhar dos outros por séculos. O sutiã moderno foi patenteado em 1914, feito de dois lenços e uma fita.

  • Num estudo com mais de 52 mil adultos, 95% dos homens heterossexuais disseram chegar ao orgasmo sempre ou quase sempre. Entre as mulheres heterossexuais, 65%.

  • Quem conhece o próprio corpo se veste diferente. E vive diferente.


Por que a ciência demorou tanto para olhar o corpo feminino?

Em 1998, a urologista australiana Helen O'Connell publicou no Journal of Urology um estudo que parece inacreditável de tão recente: a primeira descrição anatômica completa do clitóris. Até ali, os livros de medicina mostravam uma parte pequena, quase um detalhe. O'Connell mostrou uma estrutura muito maior, com raízes e bulbos que se estendem para dentro do corpo por vários centímetros.

No mesmo ano, dois estudantes da Universidade Stanford fundavam o Google. A humanidade estava pronta para organizar toda a informação do mundo, mas ainda não tinha desenhado direito uma parte do corpo de metade da população.

Não é um detalhe de rodapé. O que não é nomeado não é conhecido. E o que não é conhecido não é vivido.

O espartilho: um corpo desenhado para o olhar dos outros

Durante séculos, a silhueta feminina foi construída de fora para dentro. O espartilho, com barbatanas de baleia e depois de aço, afinava a cintura, empurrava o busto, corrigia a postura. No século XIX, anúncios prometiam a cintura perfeita, enquanto médicos discutiam os efeitos do aperto sobre as costelas e a respiração.

O espartilho não era só uma peça. Era uma ideia: o corpo da mulher como um projeto a ser corrigido, desenhado para agradar a quem olha, e não para servir a quem vive dentro dele.

Em 1914, uma jovem de Nova York chamada Mary Phelps Jacob, que mais tarde adotaria o nome Caresse Crosby, se irritou com o espartilho que aparecia por baixo de um vestido de festa. Com dois lenços de seda e uma fita, improvisou outra coisa. No mesmo ano, registrou nos Estados Unidos a patente do Backless Brassiere, um dos primeiros sutiãs modernos. Não acabou com a pressão sobre o corpo feminino, mas abriu uma fresta: a roupa podia acompanhar o corpo, e não o contrário.

O corpo não é um projeto a ser corrigido. É um lugar para morar.

O que os números dizem sobre prazer

Em 2018, a revista Archives of Sexual Behavior publicou um estudo liderado pelo pesquisador David Frederick com mais de 52 mil adultos nos Estados Unidos. A pergunta era direta: com que frequência você chega ao orgasmo nas relações íntimas? Entre os homens heterossexuais, 95% responderam sempre ou quase sempre. Entre as mulheres heterossexuais, 65%.

Essa diferença ganhou nome: orgasm gap, a lacuna do orgasmo. E o próprio estudo mostra que ela não é um destino biológico. Mulheres lésbicas relataram índices bem mais altos que as heterossexuais. O que muda não é o corpo. É o conhecimento, a conversa e a atenção que esse corpo recebe.

O erótico como fonte de poder

Em 1978, a poeta Audre Lorde apresentou o ensaio Uses of the Erotic: The Erotic as Power. Para ela, o erótico não se resume ao sexo. É uma fonte de energia, criatividade e conhecimento de si, uma medida interna do que nos dá vida. Quem aprende a escutar o próprio desejo aprende a não aceitar menos.

E a roupa entra exatamente aí. Em 2012, os psicólogos Hajo Adam e Adam Galinsky cunharam o termo enclothed cognition, a cognição vestida. Num dos experimentos, quem usava um jaleco descrito como de médico teve desempenho melhor em tarefas de atenção do que quem usava o mesmo jaleco descrito como de pintor. A roupa não muda só como os outros nos veem. Muda como a gente pensa.

Os franceses chamam o orgasmo de la petite mort, a pequena morte. Existe outro tipo de entrega, menos falado: vestir exatamente quem você é.

Como levar isso para o seu guarda-roupa

  • Escolha tecidos e modelagens pelo que você sente no corpo, e não só pelo que aparece no espelho.

  • Repare nas peças que você usa para corrigir o corpo. Quais delas você usaria se ninguém estivesse olhando?

  • Invista em lingerie e roupas de base que acompanham o seu corpo, em vez de lutar contra ele.

  • Faça da roupa um ritual: vista-se para o dia que você quer viver, e não para o olhar que você teme.


History research arquivo

1Anúncio de espartilhos Dr. Warner's Coraline, por volta de 1880
2Gravura Études sur les femmes, de Henri de Montaut, mulheres de espartilho
3Patente do Backless Brassiere de Mary Phelps Jacob, 1914
4Espartilho da década de 1880 do acervo do Metropolitan Museum of Art
5Outra gravura da série Études sur les femmes, de Henri de Montaut
6Retrato de Caresse Crosby pintado por Polia Chentoff em 1927

Do espartilho ao sutiã de dois lenços: séculos de um corpo desenhado de fora para dentro.

7Ilustração da anatomia completa do clitóris
8Folha de desenhos da patente do sutiã de Mary Phelps Jacob
9Sutiã da década de 1920 do Auckland Museum
10Catálogo dos espartilhos Coraline, da Warner Brothers
  1. Anúncio dos Dr. Warner's Coraline Corsets, c. 1880. Miami University Libraries. Domínio público, via Wikimedia Commons.
  2. Henri de Montaut, Études sur les femmes, 1882 a 1890. The Metropolitan Museum of Art. CC0, via Wikimedia Commons.
  3. Mary Phelps Jacob, patente americana do Backless Brassiere, 1914. Domínio público, via Wikimedia Commons.
  4. Espartilho, década de 1880. The Metropolitan Museum of Art, CI48.48. CC0, via Wikimedia Commons.
  5. Henri de Montaut, Études sur les femmes, 1882 a 1890. The Metropolitan Museum of Art. CC0, via Wikimedia Commons.
  6. Polia Chentoff, Retrato de Caresse Crosby, 1927. Domínio público, via Wikimedia Commons.
  7. Lepticed7, Anatomia do clitóris, ilustração, 2020. CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.
  8. Mary Phelps Jacob, patente do Backless Brassiere, folha de desenhos, 1914. Domínio público, via Wikimedia Commons.
  9. Sutiã Venus, década de 1920. Auckland Museum, AM 1967.42. CC BY 4.0, via Wikimedia Commons.
  10. Warner Brothers, catálogo dos Coraline Corsets, década de 1880. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Leituras e fontes do texto

  • Helen E. O'Connell et al., “Anatomical relationship between urethra and clitoris”, Journal of Urology, 1998.
  • David A. Frederick et al., “Differences in Orgasm Frequency Among Gay, Lesbian, Bisexual, and Heterosexual Men and Women in a U.S. National Sample”, Archives of Sexual Behavior, 2018.
  • Audre Lorde, Uses of the Erotic: The Erotic as Power, 1978.
  • Hajo Adam e Adam D. Galinsky, “Enclothed cognition”, Journal of Experimental Social Psychology, 2012.

Então, o que muda quando você conhece o próprio corpo?

Muda tudo. Muda o que você aceita, o que você pede, o que você veste. A mulher que conhece o próprio corpo não se veste para escondê-lo nem para exibi-lo a alguém. Veste para habitá-lo.

Quem conhece o próprio corpo se veste diferente. E vive diferente.

E você, que peça faz você se sentir em casa no próprio corpo? Conta pra gente nos comentários do minidoc no Instagram.

Perguntas frequentes
Quando a anatomia do clitóris foi descrita por completo?

Em 1998, pela urologista australiana Helen O'Connell, num estudo publicado no Journal of Urology. Foi a primeira descrição anatômica completa da estrutura, que é bem maior do que os livros de medicina mostravam até então.

Quem inventou o sutiã moderno?

Mary Phelps Jacob, mais tarde conhecida como Caresse Crosby, patenteou em 1914, nos Estados Unidos, o Backless Brassiere, feito a partir de dois lenços de seda e uma fita. Foi uma alternativa leve ao espartilho.

O que é orgasm gap?

É a diferença na frequência de orgasmo entre homens e mulheres heterossexuais. Num estudo de 2018 com mais de 52 mil adultos, 95% dos homens heterossexuais disseram chegar ao orgasmo sempre ou quase sempre, contra 65% das mulheres heterossexuais.

O que é enclothed cognition?

É o termo criado em 2012 pelos psicólogos Hajo Adam e Adam Galinsky para descrever como a roupa influencia o nosso jeito de pensar e agir, e não só a forma como os outros nos veem.

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