O que Nova York ensinou à moda?

Paris inventou a alta-costura. Nova York inventou a mulher que se veste sozinha. Esta é a versão longa do nosso minidoc sobre a cidade que transformou mistura em estilo: de uma vila holandesa onde se falavam dezoito línguas à noite em Versalhes em que a moda americana dividiu a passarela com a francesa e roubou a cena.

Cada capital da moda responde a uma pergunta diferente. Paris pergunta de onde você vem. Milão pergunta do que aquilo é feito. Nova York pergunta quem é você.

Em resumo

  • Em 1643, o missionário Isaac Jogues registrou que se falavam dezoito línguas em Nova Amsterdã, a vila holandesa que viraria Nova York.

  • Em 1943, com Paris ocupada na Segunda Guerra, Eleanor Lambert criou a Press Week, semente da semana de moda de Nova York.

  • Em 1973, na Batalha de Versalhes, cinco estilistas americanos enfrentaram cinco franceses e saíram aplaudidos de pé.

  • Paris é herança. Milão é matéria-prima. Nova York é indivíduo.


Uma cidade que nasceu misturada

Antes de ser Nova York, a ponta da ilha de Manhattan abrigou Nova Amsterdã, um entreposto da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais. Em 1643, o jesuíta francês Isaac Jogues passou por ali e registrou um detalhe que diz muito: na pequena vila, falavam-se dezoito línguas.

Em 1657, moradores do vilarejo de Flushing escreveram ao governador Peter Stuyvesant em defesa dos quakers, que estavam sendo perseguidos. O documento, conhecido como Flushing Remonstrance, é considerado um dos precursores da liberdade religiosa nos Estados Unidos. Desde o começo, a cidade se construiu sobre a convivência entre diferentes.

Séculos depois, milhões de imigrantes chegariam pelo porto de Nova York. Muitos foram trabalhar nas confecções do Garment District, o bairro das roupas. A moda americana nasceu ali, entre máquinas de costura, sotaques e pressa.

Quando Paris fechou, Nova York abriu

Em 1940, a ocupação alemã isolou Paris, e as compradoras americanas perderam o acesso aos desfiles franceses. Em 1943, a publicista Eleanor Lambert organizou a Press Week, uma semana de apresentações para a imprensa com estilistas locais. Ali estava a semente do que hoje chamamos de New York Fashion Week.

Uma das estrelas dessa geração foi Claire McCardell. Ela desenhava roupas práticas, de algodão e jérsei, com bolsos, em peças separadas que a mulher podia combinar sozinha, sem camareira nem costureira. Em 1942, lançou o popover dress, um vestido envelope simples e barato. Era a roupa de uma mulher que se vestia sozinha e saía para a rua.

Paris pergunta de onde você vem. Nova York pergunta quem é você.

A noite em que a América venceu em Versalhes

Em 28 de novembro de 1973, o Palácio de Versalhes recebeu um desfile beneficente para ajudar na sua restauração. De um lado, cinco nomes franceses: Yves Saint Laurent, Hubert de Givenchy, Pierre Cardin, Emanuel Ungaro e Marc Bohan, da Dior. Do outro, cinco americanos: Oscar de la Renta, Bill Blass, Anne Klein, Halston e Stephen Burrows.

Os franceses apresentaram cenários grandiosos e um espetáculo longo. Os americanos entraram com um palco quase vazio, música pop e modelos que dançavam em vez de apenas desfilar. Cerca de dez delas eram negras, algo raro nas passarelas da época. A plateia aplaudiu de pé. A moda americana deixou de ser cópia e virou referência.

Do Harlem para o mundo

Nos anos 1980, numa loja da rua 125, no Harlem, Daniel Day, o Dapper Dan, começou a recriar logos de grifes europeias em jaquetas e casacos sob medida para artistas de hip-hop e figuras do bairro. As marcas foram à Justiça e a loja fechou em 1992. Em 2017, a Gucci fechou uma parceria com ele, e no ano seguinte Dapper Dan reabriu seu ateliê no Harlem.

Em Nova York, o estilo não pede licença à tradição. Ele se apropria, remixa e devolve.

Como levar isso para o seu guarda-roupa

  • Monte um guarda-roupa de peças que conversam entre si e que você consegue vestir sozinha, sem esforço.

  • Trate bolsos, tecidos que se movem e sapatos que andam como escolhas de estilo, e não como concessão.

  • Misture referências: uma peça herdada, uma peça de rua, uma peça que só você usaria.

  • Antes de comprar, pergunte: isso diz quem eu sou ou de onde eu queria parecer vir?


History research arquivo

1Vestido de Claire McCardell exposto no Metropolitan Museum of Art
2Castello Plan, vista de Nova Amsterdã em 1660
3Ópera Real do Palácio de Versalhes
4Vestido listrado azul e branco de Claire McCardell, anos 1950
5Rua do Garment District de Nova York
6Documento Flushing Remonstrance, de 1657

De Nova Amsterdã ao Harlem: a cidade que transformou mistura em estilo.

7Rua 125 e Apollo Theater, no Harlem
8Rua 125 no Harlem em 1995
9Detalhe do vestido listrado de Claire McCardell
10Redesenho do Castello Plan de Nova Amsterdã
  1. Claire McCardell, vestido no acervo do Metropolitan Museum of Art. Foto: Rhododendrites. CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.
  2. Johannes Vingboons, Castello Plan, vista de Nova Amsterdã em 1660. Domínio público, via Wikimedia Commons.
  3. Ópera Real do Palácio de Versalhes, palco da Batalha de Versalhes em 1973. Foto: AlSepPhoenix. CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.
  4. Claire McCardell, vestido de algodão listrado, início dos anos 1950. RISD Museum. CC0, via Wikimedia Commons.
  5. Garment District, Nova York. New York World-Telegram and the Sun, Library of Congress. Domínio público, via Wikimedia Commons.
  6. Flushing Remonstrance, 27 de dezembro de 1657. Domínio público, via Wikimedia Commons.
  7. Rua 125 e Apollo Theater, Harlem. Foto: Rup11. CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.
  8. Rua 125, Harlem, julho de 1995. Foto: David Wilson. CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.
  9. Claire McCardell, vestido de algodão listrado, início dos anos 1950. RISD Museum. CC0, via Wikimedia Commons.
  10. John Wolcott Adams, redesenho do Castello Plan de Nova Amsterdã. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Leituras e fontes do texto

  • Russell Shorto, The Island at the Center of the World, 2004.
  • Robin Givhan, The Battle of Versailles, 2015.
  • Daniel R. Day, Dapper Dan: Made in Harlem, 2019.
  • Kohle Yohannan e Nancy Nolf, Claire McCardell: Redefining Modernism, 1998.

Então, o que Nova York ensina?

Que estilo não é só herança nem só matéria-prima. É decisão. Paris é heritage. Milão é matéria-prima. Nova York é indivíduo. A cidade que nasceu falando dezoito línguas ensinou à moda que não existe um jeito certo de ser mulher. Existe o seu.

Nova York não pergunta de onde você vem. Pergunta quem é você.

E você, qual cidade mora no seu guarda-roupa? Conta pra gente nos comentários do minidoc no Instagram.

Perguntas frequentes
Quando surgiu a semana de moda de Nova York?

A semente foi a Press Week, criada em 1943 pela publicista Eleanor Lambert. Com Paris ocupada na Segunda Guerra, ela reuniu estilistas americanos para apresentar suas coleções à imprensa.

O que foi a Batalha de Versalhes?

Foi um desfile beneficente realizado em 28 de novembro de 1973 no Palácio de Versalhes, em que cinco estilistas americanos, entre eles Halston e Stephen Burrows, dividiram a passarela com cinco franceses, como Yves Saint Laurent. A apresentação americana foi aplaudida de pé e virou marco da moda dos Estados Unidos.

Quem foi Claire McCardell?

Uma estilista americana que, a partir dos anos 1930 e 1940, criou roupas práticas, com bolsos e peças separadas, pensadas para a mulher que se veste sozinha. É considerada uma das criadoras do chamado American Look.

Qual a diferença entre a moda de Paris, Milão e Nova York?

Uma forma de resumir: Paris é herança e alta-costura, Milão é matéria-prima e manufatura, e Nova York é o indivíduo, a roupa prática de quem se veste para a própria vida.

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